sexta-feira, junho 1

O Destino efêmero das Criaturas - Agostinho (354-430)



Deus das virtudes, volta-nos para ti, mostra-nos a tua face e seremos salvos.


Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morre: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser. Tal é a condição que lhes impuseste, por serem partes de coisas que não existiam simultaneamente. São coisas que, desaparecendo e sucedendo-se umas às outras, compõem o universo. Também assim se realizava a fala, através de sinais sonoros. E o discurso não seria completo, se cada palavra, depois de pronunciada, não morresse para deixar lugar a outra.

Que minha alma te louve por tudo isso, ó meu Deus, criador de todas as coisas, mas a elas não se deixe apegar por amor aos sentidos. Elas caminham para o seu destino, para deixarem de existir e dilaceram a alma com paixões pestilentas, porque o desejo da alma é existir e repousar no objeto que ama. Mas ele não encontrava lugar de repouso nas coisas, porque não são estáveis: fogem. E quem poderia segui-las com a sensibilidade ou alcançá-las, mesmo quando presentes? Os sentidos são lentos, precisamente por serem carnais; tal é a condição deles. Servem a outros fins, para os quais foram feitos, mas não podem impedir que as coisas corram desde o seu devido princípio ao seu devido destino. Porque, a tua palavra, ao criá-la, disse: "Daqui até ali".

quarta-feira, maio 9

Luz Senhor, mais Luz! - C. H. Spurgeon




Tu, SENHOR, és a minha lâmpada; o SENHOR derrama luz nas minhas trevas.

2 Samuel 22.29


Estou na luz? Então, Senhor, Tu és a minha lâmpada. Se Te retirares, a minha alegria desaparecerá. No entanto, como Tu sempre estás comigo, posso resplandecer sem as luzes do tempo e do conforto produzido pelo homem. Que maravilhosa luz a presença de Deus derrama em todas as coisas!

Ouvimos falar sobre um farol que podia ser visto a mais de trinta quilômetros de distância. Nosso Jeová, porém, não é apenas um Deus que se encontra bem próximo a nós; é um Deus que pode ser visto de muito longe, mesmo no país do inimigo. O Senhor, sinto-me tão feliz quanto um anjo, quando teu amor enche meu coração.

Estou nas trevas? Então, Senhor, Tu iluminarás minhas trevas. Em breve, as coisas mudarão. As circunstâncias podem se tornar cada vez mais sombrias e as nuvens amontoarem-se umas sobre as outras. E, se tudo ficar tão escuro que eu não possa enxergar minhas próprias mãos, ainda poderei ver a mão do Senhor.

Quando não posso encontrar uma luz em mim mesmo, ou em meus amigos, ou em todo o mundo, o Senhor, que no Gênesis disse: "Haja luz" — e houve luz — pode dizer a mesma coisa novamente. Ele ainda falará comigo no resplandecer do sol. Eu não morrerei, e sim viverei. O dia já está quase findando. Este versículo precioso brilha como uma estrela da manhã. Eu baterei palmas de alegria antes que muitas horas se tenham passado.

sexta-feira, maio 4

Não o Glorificaram como Deus - João Calvino (1509-1564)




Porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu.
Romanos 1:21


Tendo conhecimento de Deus. Ele claramente afirma, aqui, que Deus pôs o conhecimento de si mesmo nas mentes de todos os homens. Em outras palavras, Deus tem assim demonstrado sua existência por meio de suas obras a fim de levar os homens a verem o que não buscam conhecer de sua livre vontade, ou seja, que existe Deus. O mundo não existe por meios fortuitos nem procedeu de si mesmo. Mas é preciso notar sempre qual o grau de conhecimento em que permaneceram, como veremos a seguir.

Não o glorificaram como Deus. Nenhuma concepção de Deus é possível ser formulada sem que se inclua eternidade, poder, sabedoria, bondade, verdade, justiça e misericórdia. Sua eternidade é evidenciada pelo fato de que ele mantém todas as coisas em suas mãos e faz que todas as coisas estejam em harmonia com ele. Sua sabedoria é percebida no fato de que ele dispôs todas as coisas em perfeita ordem. Sua bondade consiste em que não há nenhuma outra causa para que ele criasse todas as coisas nem existe alguma outra razão que o induza a preservá-las, senão sua bondade. Sua justiça se evidencia no modo como ele governa o mundo, visto que pune os culpados e defende os inocentes. Sua misericórdia consiste em que ele suporta a perversidade dos homens com inusitada paciência. E sua verdade consiste no fato de que ele é imutável. Aqueles, pois, que pretendem formular alguma concepção de Deus, devem dar-lhe o devido louvor por sua eternidade, sabedoria, bondade, justiça, misericórdia e verdade.

Visto que os homens têm deixado de reconhecer estes atributos em Deus, ao contrário o têm retratado imaginariamente como se fosse um fantasma insubstancial, tem-se dito, com justiça, que eles o têm impiamente despido de sua glória. Não é sem razão que Paulo adicione que nem lhe deram graças, pois não há ninguém que não esteja individado para com a infinita munificência divina, e somente por esta razão ele nos põe na condição de eternos inadimplentes diante de sua condescendência em revelar-se a nós. Mas seus pensamentos tornaram-se rateis, e seus corações insensatos se obscureceram, ou seja: renunciaram a verdade de Deus e se voltaram para a vaidade de seus próprios raciocínios, os quais são completamente indistinguíveis e impermanentes. Seu coração insensível, sendo assim entenebrecido, não pode entender nada corretamente, senão que se acha precipitado em erro e falsidade. Esta é a injustiça [da raça humana], ou seja: que a semente do genuíno conhecimento foi imediatamente sufocada por sua impiedade antes que pudesse medrar e amadurecer.

quinta-feira, abril 26

No mais profundo mar da divindade - C. H. Spurgeon




Em 7 de janeiro de 1855 o ministro da capela da rua New Park começou seu sermão matinal do seguinte modo:

Já foi dito por alguém que "o estudo adequado da humanidade é o próprio homem". Não me oponho à idéia, mas creio ser igualmente verdadeiro que o estudo correto do eleito de Deus é Deus; o estudo apropriado ao cristão é a divindade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais poderosa filosofia que possa prender a atenção de um filho de Deus é o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do grande Deus, a quem chama Pai.

Nada é melhor para o desenvolvimento da mente que contemplar a divindade. Trata-se de um assunto tão vasto, que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidão; tão profundo que nosso orgulho desaparece em sua infinitude. Podemos compreender e aprender muitos outros temas, derivando deles certa satisfação pessoal e pensando enquanto seguimos nosso caminho: "Olhe, sou sábio". Mas quando chegamos a esta ciência superior e descobrimos que nosso fio de prumo não consegue sondar sua profundidade e nossos olhos de águia não podem ver sua altura, nos afastamos pensando que o homem vaidoso pode ser sábio, mas não passa de um potro selvagem, exclamando então solenemente: "Nasci ontem e nada sei". Nenhum tema contemplativo tende a humilhar mais a mente que os pensamentos sobre Deus...

Ao mesmo tempo, porém, que este assunto humilha a mente, também a expande. Aquele que pensa com freqüência em Deus terá a mente mais aberta que alguém que apenas caminha penosamente por este estreito globo. [...] O melhor estudo para expandir a alma é a ciência de Cristo, e este crucificado, e o conhecimento da divindade na gloriosa trindade. Nada alargará mais o intelecto, nada expandirá mais a alma do homem que a investigação dedicada, cuidadosa e contínua do grande tema da divindade.

O caráter de Deus não muda! – J. I. Packer


Tensão, choque ou lobotomia podem alterar o caráter de uma pessoa, mas nada altera o caráter de Deus. No curso da vida humana, os gostos, a perspectiva e o temperamento podem mudar radicalmente. Alguém gentil, equilibrado, pode se tornar amargo e irritadiço. Uma pessoa de bom gênio pode se tornar cínica e insensível. Mas com o Criador nada disso acontece. Ele nunca se torna menos verdadeiro, misericordioso, justo ou melhor do que sempre foi. O caráter de Deus é hoje, e sempre será, exatamente como era nos tempos bíblicos.

É instrutivo neste ponto trazer à lembrança as duas vezes em que Deus revelou seu "nome" no livro de Êxodo. O "nome" de Deus revelado é, por certo, mais que apenas uma etiqueta, trata-se da revelação do que ele é relativamente ao ser humano.

Em Êxodo 3 lemos como Deus anunciou seu nome a Moisés: "Eu sou o que Sou" (v. 14), expressão da qual Yahweh (Jeová, o SENHOR) é na verdade uma forma resumida (v. 15). Esse "nome" não descreve a Deus, declara apenas sua existência e eterna imutabilidade; uma lembrança à humanidade de que ele tem vida em si mesmo e de que o que ele é agora será eternamente. Em Êxodo 34, entretanto, lemos como Deus "proclamou o seu nome: o SENHOR" a Moisés relacionando as várias facetas de seu caráter santo, "SENHOR, SENHOR Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade, que mantém o seu amor a milhares e perdoa a maldade, a rebelião e o pecado. Contudo, não deixa de punir o culpado; castiga os filhos e os netos pelo pecado de seus pais, até a terceira e a quarta gerações" (v. 6 e 7).